Um sargento colocou duas notas na bacia do poeta cantador que em agradecimento respondeu...
Dimas batista:
Sargento essas duas notas gostei de recebê-las Deus queira que essas três fitas transforme-se em três estrelas Dos braços passe aos ombros e eu seja vivo para vê-las.
Heleno Belo estava fazendo versos com os motes que a plateia oferecia e na primeira fila estava Joventino com uma pistola na cintura, então João Bento que estava na última fila escondido gritou o mote "Seu Joventino é ladrão", mas o poeta perspicaz que tem que cumprir com seu papel se saiu da seguinte maneira:
Só deixando de glosar Embora seja um defeito Quem glosa fica sujeito A ferir ou melindrar Agora vou me arriscar Ofendendo ao cidadão Que com calma e educação Podia ser meu amigo Você diz, mas eu não digo Seu Joventino é ladrão.
Senhores críticos, basta! Deixai-me passar sem pejo Que um trovador sertanejo Vem seu pinho dedilhar Eu sou da terra onde as almas São todas de cantadores Sou do Pajéu das Flores Tenho razão de cantar Não sou um Manoel Bandeira Drummond, nem Jorge de Lima Não espereis obra-prima Desse matuto plebeu Eles cantam suas praias Palácios de porcelana Eu canto a roça, a cabana Canto o sertão que é meu!
Miguel Amorim recitava enquanto Biu doido só observava... Miguel finalizando disse:
Não a pista que não se aborreça Vem da arte virando consumismo Por mundões que explora vagabundas Que se diz artista de uma arte Explora tudo e tudo em toda parte Tudo que as pacas ofereça No país onde bunda vende ingresso Lota show, grava disco e faz sucesso Tem o povo com merda na cabeça.
Biu doido logo se aproximou e disse:
Se eu tivesse a minha mãe Como vocês tem a sua Eu não vivia abandonado Em casa na rua Ai minha mãe, meu querido santo amor Só comparo amor de mãe, com a imagem do Senhor Papai chora por mamãe, mas quem deve chorar sou eu Papai arruma outra mulher, quem não arruma outra mãe sou eu.
Até que fim achei o autor desses versos, já escultei milhares de vezes, é sem dúvida um dos melhores... Tinha que ser de um grande poeta. Lembro que quando digitei me deparei com palavras que nunca ouvi e que não encontrei em dicionário, apenas no Google depois de muito pesquisar.
A LOUCURA
Me perguntou certa jovem Como pode ser o louco Respondi continuo pouco Quando vexame se movem Duras tormentas promovem Um roto senso baldado A sorte daquele estado Planeja pela miséria Fazer daquela matéria Um corpo inutilizado
O louco crânio sem tino Vivente de tortos planos Retrato dos desenganos Imagem de mau destino Convívio de peregrino Figura de grande peso Cofre de guarda desprezo Auto cume dos lamentos Sustentante de tormentos Estátua de menosprezo
Tem louco muito que até
Agente pensa que é pouco
Tem outro que nem é louco
E a gente pensa que é
A presença rouba a fé
O que não é se parece
O que é se transparece
Parece armada de troco
Mesmo assim quem não é louco
Tendo motivo enlouquece
Loucura dá pesadelo
No sono do abandono
Buscando jogar seu dono
Na vala do desmantelo
Distúrbio de meigo apelo
Prisão sem data marcada
Figura de cruz pesada
Copia de triste sentença
Ainda tem gente que pensa
Que aquilo não vale nada
Um louco é um penitente
Um pobre, um abandonado
Um feio, um esfarrapado
Um fraco triste decadente
Um destronado, um doente
Um vivo sem saber ser
Uma vida sem viver
Um corpo que não repousa
Finalmente é tanta coisa
Que eu mesmo não sei dizer
Eu conheço criatura
Perfeita e que tem bom senso
Fazendo pagode imenso
Do cristão que tem loucura
Alma de visão escura
Quem tem senso vive bem
Não mangue de quem não tem
Moralize os modos seus
Dê antes graças a Deus
Por não ser louco também
O louco é teimoso forte
Folha caída bolando
Como trapo incendiando
Nas chamas da pouca sorte
Desafia a dor da morte
Parelha dos castigados
Caminho dos humilhados
Repudio dos anartistas
Para essência que egoístas
Espelho dos bem pensados
O louco dos modos seus
Da pra se ficar pensando
Que o mesmo vive pagando
Mil contas que deve a Deus
Sinto nos pesares meus
Que aquilo é uma existência
Maquinante, pertinência
Pior do que quem não fala
Que o louco retrata a mala
De Deus guarda penitência
Louco admira marmota
Beleza não admira
Se for pra tirar não tira
Se for pra botar não bota
Quando ver faz que não nota
Se nota busca não vê
Quando traz é sem poder
Se puder trazer não traz
Quando diz que faz não faz
E quando faz é sem dizer
Doente é um louco broco
O velho louco demente
Menino louco inocente
Teimoso é o louco bobo
Beberrão é pouco louco
Poeta contem mistura
Casar é loucura pura
Mulher comumente é louca
Finalmente tem bem pouca
Gente para não ter loucura.
Obs.: Anarta (anartha): coisas indesejáveis maus hábitos, vícios...Aquilo que impede o desenvolvimento progressivo do ser humano.