sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

José Adalberto Ferreira glosando o mote:

Retirei seu retrato da carteira
Sem tirar seu amor do coração.


Seu veículo de amor ainda cabe
Na garagem do peito que era seu
O chassi do seu corpo está no meu
Se eu tentar alterá-lo,o mundo sabe
Não existe paixão que não se acabe
Mas amor não possui limitação
Vai além das fronteiras da Razão
E o que eu sinto por ela é sem fronteira
Retirei seu retrato da carteira
Sem tirar seu amor do coração.
Da carteira eu tratei de dar um jeito
De tirar sua foto de olhos vivos
Mas não pude apagar os negativos
Que ficaram gravados no meu peito
Junto à lei nosso caso foi desfeito
A igreja anulou nossa união
Mas do peito eu não tenho condição
De tirar esse amor por mais que eu queira
Retirei seu retrato da carteira
Sem tirar você do coração.
Seu retrato foi todo incinerado
Mas até na fumaça deu pra vê-la
Não há nada que faça eu esquece-la
Eu nem sei se por ela sou lembrado
Meu desejo inda tá contaminado
Pelo vírus da sua sedução
Junta médica não faz intervenção
Se souber que a doença é roedeira
Retirei seu retrato da carteira
Sem tirar seu amor do coração.
Esse meu coração só pensa nela
Apesar de bater no meu reduto
Cento e vinte pancadas por minuto
São as vinte por mim,as cem por ela
Eu com raiva,rasguei a foto dela
Mas amor não se rasga com a mão
Se vontade rasgasse ingratidão
Eu só tinha deixado a pedaceira
Retirei seu retrato da carteira
Sem tirar seu amor do coração.

Carlos Cavalcanti glosando o mote:

EU DEIXEI MINHA REDE LÁ NA SALA
E PARTI COM VONTADE DE VOLTAR 

Quando o trem apitou lá na estação
eu fiquei debruçado na janela
com meus olhos molhados, pois aquela
despedida era feita de emoção,
disparou no meu peito o coração:
Minha mãe se acabando de chorar
e meu pai cabisbaixo a meditar
despediu-se de mim tremendo a fala.
Eu deixei minha rede lá na sala
e parti com vontade de voltar .

Já bem perto do dia da partida
percorri os recantos da fazenda,
tirei caldo-de-cana na moenda,
comecei a traçar a minha vida:
Procurei evitar a despedida
prometendo que iria retornar,
(na cidade não dava pra ficar),
mesmo assim, arrumava a minha mala.
Eu deixei minha rede lá na sala
e parti com vontade de voltar. 

Lá deixei a arapuca , a baladeira,
alpercata de estralo e carrapeta,
joguei fora o meu bom chapéu baeta,
desprezei o pião junto à ponteira,
dei a foice, o serrote, a roçadeira,
a peixeira com pedra-de-amolar,
até mesmo o bisaco de caçar
onde sempre levava caça e bala.
Eu deixei minha rede lá na sala
e parti com vontade de voltar. 

A viagem deixou-me apreensivo,
além disso, morrendo de saudade,
pois trocara a fazenda por cidade,
no começo senti-me um morto/vivo,
mas o sonho trazia-me o incentivo
no desejo latente de estudar.
A vontade maior de batalhar,
nestes versos não dá para explicá-la.
Eu deixei minha rede lá na sala
e parti com vontade de voltar. 

Chamei Tonho, num dia de caçada,
entreguei-lhe a gaiola e a patativa,
relutei em tomar iniciativa
mas a hora final era chegada.
Detonei mais um tiro na espingarda
e olhei a fumaça pelo ar,
aumentou-me a vontade de chorar,
respirei, procurando sufocá-la.
Eu deixei minha rede lá na sala
e parti com vontade de voltar. 

Ao passar de alguns anos eu voltei,
fui rever a fazenda abandonada,
folhas secas em cima da calçada,
numa porta entreaberta logo entrei.
Sufocando emoção muito chorei
vendo a imagem de outrora retornar…
sem meu pai, sem mamãe a prantear,
no meu peito a saudade então se instala.
Não vi rede nenhuma lá na sala,
foi mais forte a vontade de voltar…

José de Sousa Dantas glosando o mote:

Sertanejo tem mania
de estar assoviando
É costume no sertão,
a pessoa assoviar,
para se realizar
entoando uma canção,
que faz com disposição
toda vez que vai andando,
trabalhando ou passeando
pela sua freguesia.
Sertanejo tem mania
de estar assoviando.

Ele acorda bem cedinho
disposto para cantar,
e começa a se inspirar
escutando o passarinho;
prossegue no seu caminho
animado, contemplando,
desenvolvendo e cantando
até o final do dia.
Sertanejo tem mania
de estar assoviando. 

É próprio do sertanejo
manter sua tradição,
que se vê na expressão
da linguagem e do traquejo,
aproveitando o ensejo,
vai sonhando e matutando,
se entretendo e se empolgando,
uma toada inicia.
Sertanejo tem mania
de estar assoviando. 

Ele escolhe uma canção
da sua conveniência,
e toca numa cadência,
na mais doce inspiração,
e se enche de emoção,
quanto mais vai recordando,
revivendo e revelando
seu sonho de fantasia.
Sertanejo tem mania
de estar assoviando. 

Assovia as mais bonitas
melodias existentes,
das antigas às recentes,
que se tornam favoritas,
mesmo sem letras escritas,
na hora vai entoando
cada uma, imitando
sem perder a harmonia.
Sertanejo tem mania
de estar assoviando. 

Realiza o assovio
numa grande animação,
que desperta a atenção,
pelo desempenho e brio,
de merecer elogio
por quem está escutando,
apreciando e pensando
como é que se assovia.
Sertanejo tem mania
de estar assoviando. 

Mesmo se for residir
numa grande capital,
não esquece o ritual
e começa a repetir
seu canto e se divertir,
como se estivesse morando
no seu berço, relembrando
faz a sua apologia.
Sertanejo tem mania
de estar assoviando. 

Quantas vezes no sertão
cultivei esse cantar,
um costume do lugar,
que mantém a tradição;
lá no meu sítio São João,
eu ficava admirando,
ouvindo e participando
do canto com alegria.
Sertanejo tem mania
de estar assoviando. 

É importante escutar
o caboclo nordestino,
no calor do sol a pino,
lutando para tirar
o sustento do seu lar
e viver se esforçando,
produzindo e prosperando,
e fazendo poesia.
Sertanejo tem mania
de estar assoviando. 

O assovio é uma forma
de linguagem universal,
comum e primordial,
que se revela e se informa,
se escuta e se conforma,
se exalta de vez em quando,
seja avisando ou cantando,
constitui uma terapia.
Sertanejo tem mania
de estar assoviando.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

José Alves Sobrinho ganha prêmio do Ministério da Cultura

Pesquisa de professora da UEPB sobre José Alves Sobrinho ganha prêmio do Ministério da Cultura

O resultado do Edital-Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel - Edição Patativa do Assaré, do Ministério da Cultura (MINC), reservou uma grata surpresa a uma docente da UEPB. Lotada na Pró-reitoria de Pós-graduação e Pesquisa (PRPGP) da Instituição, a professora convidada Joseilda de Sousa Diniz, foi uma das escolhidas na categoria Pesquisa. Joseilda ganhou o prêmio com a tese intitulada “José Alves Sobrinho: un poète entre deux mondes/José Alves Sobrinho: um poeta entre dois mundos”, sob orientação da professora Ria Lemaire da Université de Poitiers, cuja defesa foi realizada em outubro de 2009, na Universidade de Poitiers, na França.


Segundo Joseilda, a conquista do prêmio vem destacar não somente a importância da obra de José Alves Sobrinho no contexto da Cantoria e do Cordel, como também a necessidade urgente de novas políticas culturais que dinamizem a produção e disponibilizem a comunidade o acervo de cordéis da Biblioteca Átila Almeida da UEPB, na qual a docente efetua suas pesquisas e que foi construída, inclusive, numa parceria intensiva do professor Átila com o poeta José Alves Sobrinho. O prêmio coloca a Paraíba mais uma vez no mapa dos estudos sobre a poesia oral, destacando não só o trabalho da professora Joseilda, mas a UEPB e os poetas paraibanos, em especial, José Alves.

José Alves Sobrinho por Joseilda de Sousa Diniz

Poeta, cantador, improvisador, violeiro, nômade e autodidata, Sobrinho perdeu, no auge da carreira, a sua voz magnífica; tornou-se pesquisador em tradições populares e terminou a carreira como docente e pesquisador da Faculdade de Letras da Universidade Federal da Paraíba, hoje UFCG.

Para ver todos os ganhadores, confira nos link: http://www.in.gov.br/visualiza/index.jsp?data=14/12/2010&jornal=3&pagina=18&totalArquivos=280.

Políticas públicas de cultura

O Edital vem demonstrar também a importância das políticas públicas culturais voltadas para o campo das Poéticas das Vozes (poesia oral), bem como a diligência dos órgãos governamentais em colocar a poesia e o imaginário popular no centro de suas preocupações. Para a categoria de Pesquisa (dissertações de mestrado, teses de doutorado ou reedição de livros), foram contempladas dez iniciativas, no valor de R$ 25 mil cada.

Segundo Joseilda, este ano, o prêmio vem ressaltar “a importância da Literatura de Cordel como patrimônio imaterial brasileiro, entendendo sua unicidade e papel fundamental na construção da identidade e da diversidade cultural do país.” Assim, R$3 milhões foram disponibilizados pelo MINC, com o objetivo de incentivar iniciativas vinculadas à criação, produção, pesquisa, formação e difusão da Literatura de Cordel e linguagens afins.

A criação, pela UNESCO, em 2001, do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade, representou um passo fundamental em direção a uma visão diferente, muito mais positiva, das tradições orais e populares.

Ivanildo Vilanova:


Pelo vaqueiro que vaga

Por Pinto e sua viola


Por Zumbi, o Quilombola


Conselheiro e sua saga


Pelo baião de Gonzaga


E a luta de Virgolino


O barro de Vitalino


Pelo menino de engenho


Por isso tudo é que tenho


(Orgulho de ser nordestino)

João Paraibano e Sebastião Dias

1. Quem castiga um inocente
Não tem Deus no coração

Quem bate em criança é
Um tirano desalmado
Inimigo declarado
De Jesus de Nazaré
Um desprovido da fé
Sem chances de salvação
Um monstro sem compaixão
Demônio em forma de gente
Quem castiga um inocente
Não tem Deus no coração
(Sebastião Dias)

Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador


Me criei com cuzcuz e leite quente
Jerimum de fazenda e melancia
Com seis anos de idade eu ja sabia
Quantas rimas se usava num repente
Fui nascido nas mãos da assistente
Na ausencia dos olhos do doutor
Mamãe nunca fez sexo sem amor
Papai nunca abriu mão do seu direito
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador
(João Paraibano)

Rogério Menezes e Hipólito Moura

Sextilhas: A seca nordestina

Na região nordestina
Que muitos chamam de norte
Eu sei que a cara da seca
Tem aspecto muito forte
Tem o sorriso da fome
E a gargalhada da morte
(Rogério Menezes)

No lugar que a seca passa
Só crueldades revela
Expulsa o homem do campo
Pra padecer na favela
E o Piauí que eu nasci
Já se acostumou com ela
(Hipólito Moura)

Minha boca diz não constantemente
Mas meu peito ainda espera ela voltar

Ao sair ela disse eu vou sozinha
Vou deixar sua casa e seu Estado
Eu sem ela ainda estou desesperado
Sem eu ver o meu bem minha rainha
Não falou pra ninguem se ainda vinha
Ma smeu peito não cansa de esperar
Eu com outra não quero me casar
A não ser que uma deusa se apresente
Minha boca diz não constantemente
Mas meu peito ainda espera ela voltar
(Hipólito Moura)